quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Na terra de Aruanã

Se o sopro da tua voz
acelera o meu coração.
O medo do amor arrefece.
O grito sai mudo
como legenda de gibi:
Todo sim é início do não.

Dizer-te estrelas,
quando só luas se tem pra contar.
Falar de flores com um punhado
de sementes na mão.
Sonhar os beijos d’antanho
nos improváveis de Aruanda.

Abrir sorrisos.
Levantar tufão interior
quando bate ponto...
é arremesso de peteca
em quadra de tênis.

Burlar o susto, saltar o tempo.
Buscar o teu endereço
na  contracapa do livro.
Inaugurar um baticumbum
na contramão da estrada.
E seguir a viagem
pra nunca se chegar.

Dunas e montes.
Atrás de riachos profundos,
onde Aruanã guarda tesouros.
Na terra dos sem mal
claros segredos.

Ontem eu fui ao teu encontro
Você havia saído com a poesia.
Enfiaram nos teus seios
versos decassílabos.
Eu me fingi de soneto.

Pra verter com exatidão.
A obra da natureza pintada no Céu.

Como desejei ser o poeta...
A viajar no teu corpo.
Tecer cada letra
no vagar de uma estrofe.
Buscar nos seres que te habitam.
Apenas um que me amasse!

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Feliz Aniversário

Fazer aniversário
era melhor antigamente.
Traçava o bolo na manteiga.
Encomendava um guaraná Antártica.
Botava o disco na vitrola
e pronto...
Fazia cinco, seis, sete...
Sem contas.
Pouco importava quantos.
Era uma festa só.

Agora...
Nestes tempos modernos
Bolo já vem com glúten
Refrigerante com rato
A fantasia ardeu
no último carnaval.

E quantos se faz,  então...
É de perder a conta.
Dói na alma e lava o corpo inteiro.
Pesa um tantão assim.

Joga a festa no facebook
e os sorrisos congelados
vão  iluminar a linha do tempo.
Para um dia serem lembrados...
Fazer aniversário...
era  melhor antigamente.

Que Nossa Senhora de Schoenstatt proteja a minha esposa no seu aniversário e o tempo que lhe restar ainda para comemorar outros. Que sejam muitos, para que no derradeiro, a gente possa lembrar,  deste de hoje (16.10.2013), como antigamente...

Ó minha Senhora, ó minha Mãe, eu me ofereço todo a Vós! Em prova de minha devoção para convosco, vos consagro neste dia os meus olhos, meus ouvidos, minha boca, meu coração e inteiramente todo o meu ser. Porque assim sou vosso, ó incomparável Mãe, guardai-me e defendei-me como coisa e propriedade vossa. Amém!
 
 

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Suspeito de viver


Ao meu camarada Armando que dizia ser azul pra enganar quem o perseguia. Sumiu. Nunca soubemos de seu paradeiro.

Ao meu melhor amigo, Carlos Augusto, o Guta, que teve o olho de seu filhinho perfurado por “bala perdida”.

A minha tia Cida que, muitas vezes nos emprestou canecas de arroz e feijão crus, para termos o que comer. Nosso débito já deve ultrapassar meia tonelada.

Ao meu pai, José Ferreira de Lima, o Pinga, que trazia pés e pescoços de galinha, restos do restaurante do Flamengo, para ser a nossa canja, quando havia arroz.

Ainda “in memoriam” de meu pai que, mesmo nos momentos de extrema miséria, sempre nos ensinou que,  na vida, o que mais importa é a própria vida. “Não vale se sujar nem por tostão nem por milhão”.

Por fim, a Amarildo que só conheci pela imprensa. Mas convivi com a sua história ao longo da existência. Foram milhares de Amarildos que não tiveram a mídia ao lado. Mas que sofreram na carne o peso da chibata dos mesmos senhores.

Senhores da capital e do Capital. Perdoem-nos por todos os Amarildos que ousaram nascer. Perdoem-nos pelo
 crime de nascermos pobres.



 
Você é negro favelado.
Já perdeu o rebolado.
Quem mandou você nascer?
Você é suspeito de viver.

Não me olha de banda
que eu não sou quitanda.
Nem carrega na quimbanda
que o meu Quilombo é na África.

Me economiza!
Me erra!
Não me atira
seu olho gordo de fome.
A expiação desta vida
não vão te pagar.

Banda a lua.
Expurga o sol.
Pra terra da assombração
quem mandou vir, seu moço?
Pro almoço pés e pescoços
de galinhas, avezado.
Caldo de cabeça de peixe
no prato de lata de doce.
Ninguém quer ser convidado.
Passam ao longe da tua fome.

Os homens estão desconfiados.
Andam investigando os teus passos.
Na noite invadida,
por que tanto interesse na minguante?
E que tanto miravas na moça bonita?
Olhavas as marmitas...
Observava o movimento das padarias.
O que fazia de tocaia,
Na banca de bananas da feira livre?

Te cuida, seu moço!!!
Você é suspeito de viver!
Passa curtinho a tua marra.
Não avacalha o nosso serviço.
Tira este riso da cara!
Que ao feio não é permitido sorrir.

Onde esconde os esconderijos?
Entrega logo a cambada!
Diga quem foi que matou
quem não morreu?!

Sujeito folgado de honra amassada.
Nem lanterneiro te arruma...
Apruma o rumo!
Ajeita um jeito.

Se me sujar do teu sangue.
A tua família vai lavar a minha farda.
A tua ficha já foi levantada.
Você é suspeito de viver...

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Chegada de Anjo


Giovanna já nasceu virtualmente. Agora ela chega de verdade no Planeta Azul, neste sábado (14.09.2013), às 10 horas, no espaçoporto de Niterói. Vem para brilhar!
Chegada de Anjo

Se chegares pela manhã
Serás coroada pelos raios de sol
E terás o seu brilho
para  nos iluminar.

Se vieres ao cair da tarde
Na aragem que balança o dia
Serás como pássaro a trinar o hino dos alados
Que em nossa palma anunciou a sua vinda.
 
Se, no entanto, a noite te trouxer
Terás contigo a paz que embranquece a lua
E o destemor pra atravessar fronteiras.

Quem traz o sol e embala a lua
é o jogador, o acendedor de lampiões.
O mesmo Deus que nana ao apagar os dias.

E a qualquer tempo,
serás ungida pela força divina.
Serás a menina princesa
de uma  rainha mulher.

Venha, Giovanna!
Tem uma festa preparada em cada peito
Num batuque mágico de centenas de corações
A ritmar o embalo de uma nova vida!

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Um filho depois ou Um Poema para o Fábio

Quem foi que te mandou nascer depois?
Como bom vascaíno,
você se tornou um vice-filho.
Mas como a vida não é um campeonato
ser segundo na linhagem
tem lá suas vantagens;
É a tentativa de melhorar a espécie;
Aprimorar no amor para moldar o novo ser;
Pintar de amarelo, os cabelos
que primeiro foram pretos;
Tingir de azul,
os olhos verdes do primogênito;
Fazer da emoção
a lança das suas ações
e da fraternidade o seu escudo de defesa.

Ser a prata da lua
que reflete a luz do sol
e empresta a claridade
às noites dos enamorados.

Conhecer o melhor trajeto do caminhar.
Mas mudar o rumo
só pra ver aonde a vida vai dar.

Fazer do pouco o muito que lhe basta.
E reservar algum
pra repartir com o próximo.

Quem vem depois já sabe o jeito.
Mas nunca descobre
o que não tem mesmo jeito.

Ser vice-filho
Não é como ser vice-presidente.
Pra ser prudente,
divide as alegrias e as tristezas.
E nos momentos de angústia extrema...
um passa a ser o outro.
E a dor que dói demais
é a mesma dor, que dói de menos.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A fábula de Santa Teresa

Numa cidade distante, mais longe do que Depois, reza a lenda ser território livre dos colibris. Mas quem dominava as calçadas de suas ruas e praças eram os canários-da-terra. Bicavam solenes as canjiquinhas e os milhos picados que, em alquimia mágica, transformavam-nos a cada dia, nos avoantes mais amarelos do lugar.

Os azulões, livres, comiam frutas silvestres, em galhos próximos, sem nunca terem experimentado a ração industrializada, doada por mãos benevolentes.

No entanto, os canários amarelinhos ciscavam sem tirar olhos das árvores, uma ameaça constante.

No horizonte interminável, ninguém arriscava um voo no quadro da natureza. Os canários-da-terra não queriam abandonar os seus ninhos e, os azulões, por sua vez, preferiam continuar em seus galhos, trinando, como mantenedores da espécie.

Ah! E os colibris, esvoaçantes, reinavam, sem ter reinado...

E nesta fábula ainda, existia o risco dos gaviões, terríveis predadores, que podiam a qualquer tempo, comer as fêmeas dos canários, dos azulões e dos beija-flores. Se é que vocês entendem conversa de passarinhos?!

Fiz um Rap


Eu só fico observando a vida por
trás das cortinas balouçantes.
Os bondes, as viaturas, as criaturas
Os chefes, os capitães, o capital
Rata tatá, rata tatá, quem tava não tá

Tem gente passando,
De bonde, de bando
Capitão foi pro quartel,
onde está o capital?

Na manifestação, tem mais de milhão
Tem bunda lelê, tem bunda lá lá
Ainda seremos, aquela nação do futuro
O futuro que chegou, totalmente sem noção.
Rata tatá, rata tatá, quem tava não tá

Onde está o meu parceiro?
Onde está o meu irmão?
Em que luta eu estava?
Em que luta eu estou?
Quem estava, não está.
Rata tatá...

Focinho de bode

O que me sacode,
me bole,
é os modes de agora.
Que me leva donde estou
até o mundo todinho,
sem que eu saia do meu pé de chão.
 
Cara de bode.
Não explico este trote.
Oxente, my love!
Estou aqui!
Onde estou?
Dizem, ó pá!
Please! Don't!
Si, si puede!

Dio, come te amo!
Se danço o xote.
Me rumam um tal de stop.
Na xota , no pode!
Oxente, diacho de troço!

Na prece da pressa.
Só vale orar pros santos deles.
Me tratam terrorista.
Diacho, nem terra eu tenho!
 
Sou gente sem posses!
O burrico que trago.
Confesso, roubei!
E mode não vejam.
Eu trago escondido.
Todim, dent'de mim!
 
Se carrego sorte.
Quem sabe, não leiam!
E possa enervar
quem quer me calar.
 
Te digo, seu moço!
Cá no coração.
Além do burrico.
Só levo uma mula na mente.
Que ela não mente.
Profere "nos escrito"...
Oxente, my love!
Focinho de bode.
 
A José Ferreira de Lima, meu pai, comunista convicto, que, no entanto, nunca quis que eu seguisse os seus passos. Um cabra arretado.
Há mais de trinta anos, sou apenas franciscano. Reparto os pedaços de mim.
 
 
 

sexta-feira, 21 de junho de 2013

A paz dos passarinhos

Adversidades...
A de ver cidades.
Ah!... de ver cidades...
Há de ver cidades.
Adversidades.
Psiu! Façam completo silêncio!
Um passarinho pousou na cidadela.