Pois eu já tenho cinquenta
e oito.
E não é fácil ter
cinquenta e oito
de qualquer coisa.
Ter tudo em tampinhas
de refrigerantes
estrangeiros.
A quantidade em charutos
importados.
Ter todo o tanto de
figurinhas carimbadas.
A coleção em selos raros.
Ter a metade, que seja,
de amigos de verdade.
Um bosque de árvores
cinquentenárias.
Abraços e beijos
apaixonados.
As miniaturas dos objetos
desejados.
Ter o visto permanente de
entrada
para os países da Europa e
da Ásia.
Ter tido tantos cães de
guarda,
quanto a dor das perdas,
tenha nos colocado
à prova,
e a sobrevida resistido incólume.
Guardados na gaveta
os cinquenta e oito
melhores discos, livros
e saudades escondidas lá
no fundo.
Ter na memória os
preferidos filmes.
Ter tido cinquenta e oito
tons de sonhos realizados.
E não ligar nem mesmo um
pouco
para os cinquenta e oito
objetivos
nunca alcançados no
passado.
O futuro será o fim de
tudo.
Em tempo breve
terei a vantagem de pagar
só meia,
por ter vivido uma vida
inteira.
Ter a passagem num cartão
de plástico.
A existência sustentável
da grande cidade.
Sou de maioridade.
Entrar na fila dos idosos,
artéria da América Latina,
onde geme a dor dos povos.
Cinquenta e oito tons e talvez
alguma sorte.
E a certeza de que a cada
novo,
serei um mais velho.
E a cada nova etapa
ultrapassada...
será mais difícil atingir
a próxima.
Vou precisar tomar
cinquenta e oito remédios
para cinquenta e oito
doenças adquiridas,
que vão me custar
cinquenta e oito dinheiros.
E vão me dizer que, agora
sim,
cheguei à melhor idade...
Que gente engraçada!