
Amava o meu Bob Cão.
Era um pastor vira-lata.
Às vezes latia em alemão.
Mas falava melhor no gestual e no olhar.
Parava ao meu pé calado
e num repente
beijava-me a boca.
Subia num vôo acrobático.
Era um pássaro de pelos.
Quantas festas nos fazia.
Uma dita matou-nos de susto.
Grudou um osso na boca.
Desfaleceu sem adeus.
Arrancada a farpa,
a morte não retrocedeu.
No entanto, no espanto,
um jato d’água lhe tirou
da letargia.
Ah! Meu Bob Cão.
O mais valente dos amigos.
Fazia plantão à porta,
na minha chegada de todo dia.
Bob já nos chegou idoso.
Sofria do coração.
Mas ao menor risco,
já se mostrava arisco
e nos defendia de corpo inteiro.
Houve outros ataques de dormência.
E houve um definitivo.
Sem querer meu sofrimento
ele escondeu a morte
atrás do meu esquecimento.
Lá ele deitou profundo
na cova ao pé do coqueiro,
pra que eu não percebesse,
a ausência de seus beijos.
Aninhada a perda,
meus olhos não mais
se encontraram.
Quase sempre ainda derramam
pela ausência do velho guerreiro.
Meu amigo de pelo e do peito;
Onde vou amarrar a minha vida?

