terça-feira, 14 de setembro de 2010

Bob Cão


Amava o meu Bob Cão.
Era um pastor vira-lata.
Às vezes latia em alemão.
Mas falava melhor no gestual e no olhar.
Parava ao meu pé calado
e num repente
beijava-me a boca.
Subia num vôo acrobático.
Era um pássaro de pelos.
Quantas festas nos fazia.
Uma dita matou-nos de susto.
Grudou um osso na boca.
Desfaleceu sem adeus.
Arrancada a farpa,
a morte não retrocedeu.
No entanto, no espanto,
um jato d’água lhe tirou
da letargia.
Ah! Meu Bob Cão.
O mais valente dos amigos.
Fazia plantão à porta,
na minha chegada de todo dia.

Bob já nos chegou idoso.
Sofria do coração.
Mas ao menor risco,
já se mostrava arisco
e nos defendia de corpo inteiro.

Houve outros ataques de dormência.
E houve um definitivo.
Sem querer meu sofrimento
ele escondeu a morte
atrás do meu esquecimento.
Lá ele deitou profundo
na cova ao pé do coqueiro,
pra que eu não percebesse,
a ausência de seus beijos.

Aninhada a perda,
meus olhos não mais
se encontraram.
Quase sempre ainda derramam
pela ausência do velho guerreiro.
Meu amigo de pelo e do peito;
Onde vou amarrar a minha vida?

terça-feira, 24 de agosto de 2010

O amor está no ar

As redes sociais inauguraram
o amor eletrônico.
São informações impessoais
que convergem para uma
paixão cibernética.
A cara do teu corpo
não tem idade nem sexo.
Saudades de um tempo
em que se andava de mãos dadas.
Os beijos ficaram raros.
O frio dos encontros
esvaziou as barrigas.
Não se cora mais de vergonha.
Nem se decora poesia
para se ofertar à pessoa amada.
Os horários temperados
pelos atrasos
foram trocados
pelos orgasmos virtuais.
As flores são jardins prontos.
Muitas vezes congelados
pelos gigabytes pesados.
Gostava mais do amor
de antigamente.
Quando furtivamente havia
o enlace das mãos
no escuro do cinema.
Era bom tomar chope gelado
e beber beijo quente.
Ser lugar-tenente
no sonho do outro.
Guardar para sempre
os sonhos trocados.
Falar baixinho,
juras segredadas;
o alter ego sou eu.
Chorar a dor da separação.
Fazer da reconciliação
o troféu de não mais perder.

Quem sabe um anúncio
de jornal seja a janela
do antigamente.
Uma carta escrita ao acaso
para o endereço
de um coração nostálgico.
Uma muda de roseira.
Ninho de sabiá na goiabeira.
Um sorvete de queijo no final do Leblon.
Um violão num bar de Ipanema.
Uma esticada ao Joá.
Assistir ao amanhecer das águas.
Abrir um sorriso nas bocas fechadas.
Desejar bom dia, todos os dias.
Quem sabe, toda esta alquimia,
reabra a caixinha mágica do amor.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O dia da vida

Felizes dias tenham sido os teus.
Para que façam jus,
a este momento de luz:
a data do dia da vida.
Pelos cantos todos
que se dance tanto,
sem perder o encanto.
Se deguste a vida
doce, em pedacinhos:
brigadeiro, cajuzinho,
gamadinho e casadinho.
Os sorrisos todos,
sejam abertos aos cântaros.
Afagos e abraços,
modinhas e cânticos.
Que saúdem o hino
do teu próprio ninho;
Cantiga de amor,
cantiga de amigo.

O tempo ido e o pra se levar.
As sementes férteis.
Lavra do Jardim do Éden.
Derradeira estrela
desta vossa estrada.
Os vossos quereres
e os vossos poderes
são vossa bagagem
desta nave mãe, da vossa existência,
que ora, aporta, no porto da festa.
No entanto, já zarpa amanhã.
Vai de sonhos sobraçados pelas velas,
em busca da ilha da felicidade.

Douro-te ao dobrar
mais este marco da lida.
Dou-te de presente
toda a minha crença.
E leve a certeza
da minha amizade.
Se de nada valem.
Valem o bem querer.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Bolo de Barro

Te conto, mas não me pergunte,
como é que eu sei desta história.
A fome te engole por dentro
e tem um apetite voraz.
Te come as paredes do estômago
e toma o teu suco gástrico.
Queima as entranhas.
Apaga os sonhos.
Derruba o destino.
A fome te transforma
em homem de trapo.
Que come bolo de barro.
Engole sapo.
Toma água da chuva.
Sorri da mulher com chapéu.
Acha graça do sol e da lua.
O homem da rua não chora.
Não há desatino maior que aflore.
Não há tristeza que supere
a fome de todo dia.

terça-feira, 13 de julho de 2010

O Elefante

O elefante no telhado
transformou aquela manhã de maio.
Não era um homem armado
nem uma mulher amada.
Era mesmo um paquiderme enorme.
As telhas intactas mantinham o imaginário da multidão
que se aglomerava para assistir
ao inusitado do elefante voador.
O guarda, a ambulância, o bombeiro.
O Ministério Público apresenta denúncias
do desmatamento das florestas.
Mazela que expulsa de seus habitats,
os animais acuados, para as cidades invasoras.
Consertar um telhado, depois do estrago do passo do elefante,
ainda é mais rápido que refazer os tetos das árvores;
Recuperar os mananciais das águas;
Reconstruir os ninhos dos passarinhos;
Quantos elefantes serão necessários
para derrubar as nossas cercas,
pisar em nossos jardins,
subir em nossos telhados...
para que tomemos a atitude de repensar o mundo?

sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago, o viajante do tempo

Sara, mago!
Saramago não sarou.
Pegou uma caravela, a mais bela,
e partiu para uma viagem
por mares nunca d’antes navegados.
E não era mágico de sobrenome.
Era de nome inteiro.
Das vinhas de José Saramago
vinha criação de boa cepa:
Quase um vinho pra degustação.
Embora hermético, rebuscado,
onde pareceres se misturam a conceitos,
levando os incautos leitores
para a estrutura do texto.
Em meio a letras portuguesas,
gigantescas, quase indomáveis,
vagam nas lides do intertexto.
Lutas para reconstruir o entendimento.
Penas domadas pelo mestre Saramago
que o levaram a dobrar o Cabo da Boa Esperança,
em merecimento, ao Prêmio Nobel da Literatura.
Único filho da língua de Camões, a galgar casta façanha.

E se Jesus é filho de José.
De José Saramago não é.
Este inventou um outro Deus
que vai levá-lo para um céu particular.
Onde não existem anjos nem demônios.
Estes perduram somente,
num mundo de outros Josés.

sábado, 12 de junho de 2010

Enfermeiros


A Fábio Pimentel e Pâmela que ora, colam Grau como enfermeiros e, mais tarde, pretendem juntar suas vidas.


A vida brincando de equilibrista em nossas mãos.
O acolhimento ao paciente feito por homens de gelo.
Estampado em nossas vestes.
Não necessariamente em nossas emoções.
De fio a pavio a costura no corpo.
Na mente a vontade de massagear a alma
que pulsa e quer voar ao desconhecido.
A nossa missão?
Sacramentada em juramento;
amarrá-la deste lado da existência.
E se perdemos o pulso?!
Vale a lágrima derramada.

Os mantenedores de vidas
são descobridores de caminhos
mas não conseguem abrir novas rotas.
São semeadores de esperanças
mas não colhem certezas.
Precisam de estrela
mas também trabalham com cruzes.

Enfermeiros são bombeiros
de incêndios corporais.
São anjos de um céu anunciado.
São instrumentistas
de um samba atravessado.

Sorrisos de bálsamo.
Afagos que curam.
A paciência que é novena.
A extrema-unção na contramão.

Desbravadores de veias e artérias.
Senhores da intrínseca máquina humana.
Detentores dos segredos dos milagres
São eles que abrem o agora
e fecham o depois.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

A cidade que queremos

Hoje a cidade grande
amanheceu enorme.
Os crimes dos jornais
ainda pereciam nas esquinas.
Nossos heróis do povo deslizavam
em trens incertos,
tocados pelo combustível
da comida incerta,
na busca dos quereres
massificados na tevê.

Houve um baile
de música sem melodia
no templo das danças indígenas.

Na noite fria
foram vendidas
duas mil e trinta e cinco
drogas extraídas das matas dos pajés.

Princípio básico
da exploração
dos sem-remédio.

As mulheres lindas,
como se não houvesse pranto,
desfilaram suas modas do exterior,
impunemente, como se fossem “made in Brazil”.

De nossos mesmo
restaram os sonhos.
Caminhos oníricos
de um mendigo
que no canto de uma esquina
dançava o reagge.

A cidade que queremos
vai continuar amanhecendo,
todos os dias se querendo.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

O voo de Graça Carpes


Ventanias derramam versos no chão da floresta.
Cambucá, abricó, açaí, jabuticaba, jamelão.
Um sabiá graça na busca de uma fruta-pão.
Carpes do ninho a amamentar.
Ave! Passarinho.