quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O sol da meia-noite


O poema transcrito abaixo faz parte do Movimento Popular de Literatura Brasileira, corrente que, se nunca existiu, está nascendo agora. Esta pequena preciosidade eu trago na lembrança desde a minha meninice. Agora eu resolvo partilhar com os frequentadores do meu blog. Toda a obra do MPLB terá esta sigla, como selo de procedência; nascido no seio do povo brasileiro. Alguns trabalhos podem ter a coautoria deste blogueiro.
Geraldo Ferreira de Lima

MPLB
Era meia-noite...
O sol raiava.
As tartarugas
voando, de galho em galho
e os pássaros se arrastando,
vagarosamente pelo chão.

Enquanto isso, um homem nu,
de mão no bolso...
Sentado, em pé,
num banco de pedra feito de pau...
Pensava:
Prefiro morrer de morte morrida.
Do que de morte matada.

 A lua do meio-dia

Era meio-dia...
No céu de lua cheia.
Os cavalos-marinhos
deixavam o Cais do Porto.
E os leões jogavam bola
na Avenida Rio Branco.

Enquanto isso, uma mulher em pelo,
Em pé, deitada, num pedestal de papelão...
Bradava:
O carnaval que passa em fevereiro.
É o mesmo que passa o ano inteiro.
Só mudam as fantasias.
aninhatolentino.blogspot.com
 

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Saudades de Treze Tílias


Hoje me deu extrema vontade
de te desejar bom dia.
Porque o sol nasceu pleno
e eu lembrei de que
te amei um dia.

Era um domingo assim todo.
Havia alegria na avenida.
E eu guardei teus sorrisos
No bolso do brilho seco.

Na luz do teu rosto aceso
Foi tanta lembrança boa.
Entrei na fila da vida,
mas nunca encontrei nada igual.

Foi uma paixão tão intensa.
Dessas que ao acabar, dá pena...
te cuida uma expressão de retalhos,
de que seja possível reatar.

Canários que ciscam na praça
São teus emissários de penas
São anjos de cor amarela
Que pousam títeres
no meu teatro da existência.

Nas serras de Santa Catarina
Embaixo de Treze Tílias
Trazem-me imagens da Áustria
Longe em que nunca estive.

Agora me recordo amiúde.
No arrebol treze-tiliense.
O que tinha graça, perdeu.
E doeu no peito esta dor.
Que dói demais no desfecho.
E corrói no juntar de outras dores.

                                      caracolviagens.com.br
                                        tirolerfest.com.br
                                 baixaki.com.br


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Arca Urbana


Estamos transmitindo,
direto do planeta dos sobreviventes.
Onde o mundo existe, apesar da dor.
A desfaçatez nos coloca ao vivo, em cores,
para todos os países do circuito da tragédia.
Aqui a morte é um negócio de vida.
Santa Maria, orai por nós.
Este programa é um patrocínio exclusivo...
do banco da ocasião...
que vai transformar a tua vida num paraíso,
com os juros mais baixos do mercado.

Fumar faz mal à saúde.
Isto é propaganda, não é praga.
Se for dirigir, não beba.
Se você morrer de sede...
Pare antes o carro no acostamento.

Voltamos!
Com imagens ao vivo
direto do Vaticano, o território mais perto do Céu,
para informar que Bento XVI
renunciou ao papado.
E agora, Senhor?
Quem vai encomendar as nossas preces?
No hospital, o lamentável quadro,
aponta que centenas de jovens
não devem sobreviver
aos ferimentos do sinistro.
Santa Maria, glorificai
a quem brindava a felicidade.

Cortamos para informar que,
no Engenhão,
reinventaram o gol,
aos 52 minutos do segundo tempo.
Num momento de pura magia do time grande.
Uma procissão sem catarse,
já se arrastava para casa,
carregando a crença do narrador:
faltara sorte o jogo inteiro.

Agora, direto da Basílica de Brasília,
voltamos a falar sobre a renúncia do Papa
que ousou largar de mão, os fiéis,
antes da  morte chegar.
E a nave vai!

Arca urbana
abarca a cidade universitária.
Em horário nobre,
centenas de meninos
serão crucificados outra vez.
Extraordinário o show da vida,
que, mata por meses a fio,
a quem precisa de paz,
para partir ou para ficar.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Dito e Feito


                                       Geraldo Ferreira e o povo brasileiro - MPLB

A voz do povo é a voz de Deus.
No atropelo do canto
vai nascer tirado dos provérbios
o poema do povo brasileiro.

Palavra puxa palavra.
No nascedouro da poesia
eis a magia dos versos;
Saem da alma prontos

Quem conta um conto aumenta um ponto.
Não tiro vírgula do que está dito.
A história feita vira romance
depois de correr as sete freguesias.

Quem tem telhado de vidro não atira pedras ao vizinho.
De pouco vale toda defesa,
se a natureza nos fez humanos.
Não rola pedra sem ter pedreira.

Pedra que rola não cria limo.
Deixa a paz no seu portão.
Não vale a vida
sem o limo onde brotam as suculentas.

Não há rosas sem espinhos.
Jardins antecedem pomares.
Pomares são sonhos das aves.
Bichos alados disseminam jardins e pomares.

Lua nova trovejada, 30 dias é molhada.
Da tempestade à bonança.
Tem o caminho do sol
que não raia em chuva demorada.

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.
Pra bom entendedor vale o lema;
O bom senso deve imperar
em todas as nossas pendengas.

Muito alcança quem não cansa.
Dito que Deus ajuda a quem cedo madruga.
E a perseverança é a chave do tamanho.
Uma vitória é uma porta da vida feita de portas.

Candeia que vai à frente alumia duas vezes.
São olhos da romaria
dos penitentes do altíssimo.
Iluminai os caminhos dos que seguem a oração.

Boa romaria faz, quem em casa fica em paz.
Porém quem pede de corpo inteiro, também sabe outro segredo.
Os pés dos primeiros passos
transpassam montanhas a píncaros.

Devagar se vai ao longe
distante que não sei lá.
No passo do passarinho
voa quem vai devagarinho.

Gaivotas em terra, tempestade no mar.
Navegar é preciso
nas costas do além-mar.
Ondas sacudidas a que distância nos leva?

Águas passadas não movem moinho;
mas passam por muitos ninhos.
Bebe a sede dos ribeirinhos.
É benta no leito santo.

Antes tarde do que nunca;
o bom filho à casa torna.
Pois é preciso cuidar:
A morte não escolhe idades.
A instrução é a luz do espírito.

Em agosto toda fruta tem gosto.
Laranja madura na beira da estrada
faz de amarelo a moldura da via.
E avia a rolagem passageira.

Ao fim desta prosa dita
nem vale firmar floreio.
Benditos sejam os povos que cantam.
Pois as palavras voam e a escrita fica.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Na casa da Aparecida


Na casa da Aparecida
Quem é de chegança
É bem-vindo
Tem vinho de boa cepa
Tem cerveja de eucalipto
Petisco à moda mineira
Abraços de antigamente
Tem pés com frutas maduras
Panela de barro e pirão

Na casa da Aparecida
Tem santos do Céu e da Terra
Tem cura pra mau-olhado e quebranto
Tem parteira benzedeira
No espanto da lua cheia
Tem grito estranho no quintal
Tem sombra de lobisomem
E sorriso afasta o mal

Na casa da Aparecida
Tem festa pra Oludumaré
Tem reza pra Jesus Cristo
Tem banho de ervas santas
Tem hostes do Cacique Pena Branca
Tem canto do galo na serra
Quando a mata estremeceu
Na casa de Aparecida
Onde a fraternidade habita
A paz faz sua morada


                           Foto: Fátima Pimentel

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Recado


Vó, não me deixe tão só.
Não me deixe tão só... Oh! Minha vó!
Eu preciso estudar!
Eu preciso aprender!
Eu preciso saber...
Oh! Minha vó!

Ando tão ocupado.
Tanta lida a levar.
Tanto sol por nascer.
Tanta coisa a fazer.
Oh! Minha vó!

Vou escrever pra você
que  é pra eu não me esquecer.
Eu preciso contar
com alguém pra contar...
cada passo que eu der. 

Minha vó das vontades,
nunca pense que eu possa
trocar o teu amor
por um outro qualquer. 

Minha casa, os amigos.
Minha mãe...
Os irmãos por chegar.
São amores distintos...
Não disparam o coração
feito estilingue...
como o que eu sinto
por você. Oh! minha vó!

Não me faça a faceta
de partir, antes que eu cresça.
Sou capaz de subir
nas alturas do Céu,
só pra reclamar. 

Minha vó, não me esqueça.
Pois por mais eu eu mereça,
não seria capaz
de encontrar...
outra assim tão avó
das minhas crenças.
 
 

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

O pão da terra


                     À Maria Zanoni ...
                     que cultivou o pão da terra em nossos corações.

O pão da terra.
Que alimenta os homens do planeta.
Dá o sustento a quem trabalha.
Mostra que a vida amanheceu.

Terra:
A nave mãe destas colheitas.
Do solo serve nosso banquete.
Ventre do alimento para a população.

Crença:
Seguro de toda a existência.
A resistência às agressões.
Berço da fé na plantação.

Anoitecer:
O tilintar dos pirilampos.
O debruçar da lua em prata.
A demarcar novas estações.

Deixa florir o tempo.
Aprofundar raiz.
Meter a mão no solo.
Pra cavoucar

o pão da terra.


                                            Fotos: Fátima Pimentel

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Os beijos teus


Guardei com zelo
os beijos teus.
Frutos de encomenda.
Levados na bagagem
nos guardados frágeis.

Grudados no céu da boca
pra não misturar
com outros desejos meus.

Gosto de baunilha.
De munguzá.
Bala de anis.
Água gelada e guaraná.

Levei-os sem engolir
por toda a distância
e o tempo inteiro
que nos separam da saudade.

Juro-te agora:
Morri no peito
a dor demais.
Ter de entregar
todos os beijos
sem lançar mão,
de um que seja,
só pra provar
um beijo teu.

                 Foto: Fátima Pimentel 

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Em Pasárgada com Bandeira

Vou-me embora pra Pasárgada
Atrás do amigo do rei.
Lá procuro Ciro da Pérsia
Pra que dê contas
do nosso poeta Bandeira.

Encontrado o domador das letras
Por cá dito primeiro Manuel.
Iremos à cata das mulheres
com caras de boneca.
E as beijaremos aos tantos,
nos cantos que cá não há.

Porquanto me calo em cinzas.
É canto de despedida.
No encontro das águas
do Negro com o Solimões.
Tenho sede.
Quedo por Iara, a mãe-d’água.
Nas barrancas do Amazonas
sonho a última vez
com alguma felicidade.

Sou a favorparente
de todas as rainhas loucas.
Perdoe-me a Joana da Espanha
Por não lhe ser contraparente.
Nem nora, pois me ignora.

Vou-me embora pra Pasárgada.
Não sou de portar Bandeiras.
Mas lá vou amar mais que tantos.
Terei camas e seguro de concepção.
Posso ligar no automático
pra qualquer civilização.

E se a tristeza bater
cá me arrebento todo,
mas dou um nó no desatino
e bebo uma cachaça de Uberaba
que carrego no embornal.
Pois vou-me embora pra Pasárgada
mas levo um tanto de Brasil.