segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Recado


Vó, não me deixe tão só.
Não me deixe tão só... Oh! Minha vó!
Eu preciso estudar!
Eu preciso aprender!
Eu preciso saber...
Oh! Minha vó!

Ando tão ocupado.
Tanta lida a levar.
Tanto sol por nascer.
Tanta coisa a fazer.
Oh! Minha vó!

Vou escrever pra você
que  é pra eu não me esquecer.
Eu preciso contar
com alguém pra contar...
cada passo que eu der. 

Minha vó das vontades,
nunca pense que eu possa
trocar o teu amor
por um outro qualquer. 

Minha casa, os amigos.
Minha mãe...
Os irmãos por chegar.
São amores distintos...
Não disparam o coração
feito estilingue...
como o que eu sinto
por você. Oh! minha vó!

Não me faça a faceta
de partir, antes que eu cresça.
Sou capaz de subir
nas alturas do Céu,
só pra reclamar. 

Minha vó, não me esqueça.
Pois por mais eu eu mereça,
não seria capaz
de encontrar...
outra assim tão avó
das minhas crenças.
 
 

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

O pão da terra


                     À Maria Zanoni ...
                     que cultivou o pão da terra em nossos corações.

O pão da terra.
Que alimenta os homens do planeta.
Dá o sustento a quem trabalha.
Mostra que a vida amanheceu.

Terra:
A nave mãe destas colheitas.
Do solo serve nosso banquete.
Ventre do alimento para a população.

Crença:
Seguro de toda a existência.
A resistência às agressões.
Berço da fé na plantação.

Anoitecer:
O tilintar dos pirilampos.
O debruçar da lua em prata.
A demarcar novas estações.

Deixa florir o tempo.
Aprofundar raiz.
Meter a mão no solo.
Pra cavoucar

o pão da terra.


                                            Fotos: Fátima Pimentel

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Os beijos teus


Guardei com zelo
os beijos teus.
Frutos de encomenda.
Levados na bagagem
nos guardados frágeis.

Grudados no céu da boca
pra não misturar
com outros desejos meus.

Gosto de baunilha.
De munguzá.
Bala de anis.
Água gelada e guaraná.

Levei-os sem engolir
por toda a distância
e o tempo inteiro
que nos separam da saudade.

Juro-te agora:
Morri no peito
a dor demais.
Ter de entregar
todos os beijos
sem lançar mão,
de um que seja,
só pra provar
um beijo teu.

                 Foto: Fátima Pimentel 

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Em Pasárgada com Bandeira

Vou-me embora pra Pasárgada
Atrás do amigo do rei.
Lá procuro Ciro da Pérsia
Pra que dê contas
do nosso poeta Bandeira.

Encontrado o domador das letras
Por cá dito primeiro Manuel.
Iremos à cata das mulheres
com caras de boneca.
E as beijaremos aos tantos,
nos cantos que cá não há.

Porquanto me calo em cinzas.
É canto de despedida.
No encontro das águas
do Negro com o Solimões.
Tenho sede.
Quedo por Iara, a mãe-d’água.
Nas barrancas do Amazonas
sonho a última vez
com alguma felicidade.

Sou a favorparente
de todas as rainhas loucas.
Perdoe-me a Joana da Espanha
Por não lhe ser contraparente.
Nem nora, pois me ignora.

Vou-me embora pra Pasárgada.
Não sou de portar Bandeiras.
Mas lá vou amar mais que tantos.
Terei camas e seguro de concepção.
Posso ligar no automático
pra qualquer civilização.

E se a tristeza bater
cá me arrebento todo,
mas dou um nó no desatino
e bebo uma cachaça de Uberaba
que carrego no embornal.
Pois vou-me embora pra Pasárgada
mas levo um tanto de Brasil.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A Nega Maluca

Menção Honrosa no 14º Concurso Literário promovido pela CEPERJ - Fundação Centro Estadual de Estatísticas e Formação de Servidores Públicos do Rio de Janeiro


homenagem aos ceramistas brasileiros

A nega maluca
Pulou da caneca
Caiu no melado
Ficou doce à beça.

Com seu rebolado
Conquista quem é bamba
Menina sapeca
Levada da breca.

No berço da raça
Tem negra na graça
Tem ginga no samba
Faz luz da manhã.

Mocinha dengosa
Da praia das rosas
De todo cheirosa
Faz gosto te olhar.

Neguinha bem feita
Da bunda empinada
Balança em bordado
O teu caminhar.

A nega florida
De laços de fitas
Cabelo de chita
Tem made in Brazil.

Minha nega maluca,
qual deus te criou,
com a liga do barro
das Minas Gerais,
de Nosso Senhor?!

Te guardo com arte.
Te pinto.
Te quero.
Te fiz um bolero
pra te decorar.

Te amo cozida, assada, querida
Te faço só minha.
Te cubro de amor.

Cunhada obra-prima
no domo da arte.
Sacodes moringa
Me matas a sede.
Me secas de amor.

Neguinha da mata.
Das Dores, das Graças.
Mulata guerreira
nos rumos da fé.

Sincera!
Singela!
Tão meiga!
Tão bela!

Oh! Nega mais doida!
Que mora em Paris.
Visita Istambul.
Está em Moscou.
Conhece Lisboa.
É cabra da peste
lá em Budapest.

Às noites é gris.
Vermelho-estrada.
Tardes, furta-cor.
Nos sonhos azuis:
Enfeita o meu aparador...


                                                           Foto: Fátima Pimentel

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Melissa, o seu retrato

Melissa é estudante de Educação Física e minha sobrinha. Hoje é gente. Mas nasceu flor!


Melissa é flor, Melissa é gente.
Erva cidreira verdadeira.
Encantadora guerreira.
Melissa romana ou chá da França?
Garota carioca ou bálsamo da serra?
Melissa é doce!
Melissa é mel!
São poesias de simplicidade!
Extrai diamantes de sementes de romã.

Transforma as lutas mais difíceis,
nas vitórias mais fáceis.
Nunca chora.
Tem medo que pingue ouro
de seus olhos.
Prefere a zanga
ou um sorriso pela metade,
quando algo não lhe agrade.

Melissa é remédio que acalma.
São flores que surgem
brancas ou amareladas.
Com o passar do tempo,
podem ser rosadas.
Arbusto de verde intenso
nas extremidades
e verde claro na base.

Melissa é remédio que acalma.
São risos que surgem brancos
E sorrisos cheios de bondade.
Com o passar do tempo,
são ternos e esperançosos.
Menina de vigor intenso
nas extremas horas.
De derramar à base
por injustiças máximas.

Como todo brasileiro
não existe distância
que não vença
nem horizonte
que não ultrapasse.

Melissa é extrato da paz.
É chá de tranquilidade.
É pouco para a saciedade
e muito para a fome intensa.
Melissa é flor e é gente.
É doce de mel.
São versos mágicos
de Graça Carpes.
Tem poema que é o seu retrato.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Mulheres de magia


Que magia se desprende de teus pés
e faz do teu corpo, alado,
sem sair do chão?
Balanças ao ritmo
da melodia inaudível.
Copo de água no deserto.
Sede para cachoeira.
Cristalina e mineral certeza:
Sorrisos são sementes de mulher.

Onde namoras, moram os desejos.
Dormem em teus braços
os abraços inteiros.
Embalas os nascidos
e os que vão nascer.

Magas, bruxas, anjos...
De onde arrancas
a música que te sacode
na avenida sem desfile?
Em que céu serás estrela?
Em que jardim serás flor?
Em que mar serás navegação
de tantos sonhos de amor?

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Toda água é benta


Se as meninas dos meus olhos
não enxergam o céu da boca,
não diria ser a sina
do malfadado agouro.
Não desinventaram ainda
as engrenagens da bela vida.

Se as meninas dos meus olhos
perderam seu brilho cristalino,
vale lacrimal não transbordou seu jorro.
Lago de tantas imagens
não trouxe à tona as tinas
das lavadeiras antigas.
Dos louvamentos e dos louva-a-deus.
Das preces cantaroladas
nas águas bentas dos riachos,
escorrendo as rezas entre as pedras.
Rios dos lava-pés, de lavar roupas,
de lavar menina-dos-olhos.
Na palma da mão, um tanto de água,
pode ser um bocado de Deus.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Bob Cão


Amava o meu Bob Cão.
Era um pastor vira-lata.
Às vezes latia em alemão.
Mas falava melhor no gestual e no olhar.
Parava ao meu pé calado
e num repente
beijava-me a boca.
Subia num vôo acrobático.
Era um pássaro de pelos.
Quantas festas nos fazia.
Uma dita matou-nos de susto.
Grudou um osso na boca.
Desfaleceu sem adeus.
Arrancada a farpa,
a morte não retrocedeu.
No entanto, no espanto,
um jato d’água lhe tirou
da letargia.
Ah! Meu Bob Cão.
O mais valente dos amigos.
Fazia plantão à porta,
na minha chegada de todo dia.

Bob já nos chegou idoso.
Sofria do coração.
Mas ao menor risco,
já se mostrava arisco
e nos defendia de corpo inteiro.

Houve outros ataques de dormência.
E houve um definitivo.
Sem querer meu sofrimento
ele escondeu a morte
atrás do meu esquecimento.
Lá ele deitou profundo
na cova ao pé do coqueiro,
pra que eu não percebesse,
a ausência de seus beijos.

Aninhada a perda,
meus olhos não mais
se encontraram.
Quase sempre ainda derramam
pela ausência do velho guerreiro.
Meu amigo de pelo e do peito;
Onde vou amarrar a minha vida?