quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Em Pasárgada com Bandeira

Vou-me embora pra Pasárgada
Atrás do amigo do rei.
Lá procuro Ciro da Pérsia
Pra que dê contas
do nosso poeta Bandeira.

Encontrado o domador das letras
Por cá dito primeiro Manuel.
Iremos à cata das mulheres
com caras de boneca.
E as beijaremos aos tantos,
nos cantos que cá não há.

Porquanto me calo em cinzas.
É canto de despedida.
No encontro das águas
do Negro com o Solimões.
Tenho sede.
Quedo por Iara, a mãe-d’água.
Nas barrancas do Amazonas
sonho a última vez
com alguma felicidade.

Sou a favorparente
de todas as rainhas loucas.
Perdoe-me a Joana da Espanha
Por não lhe ser contraparente.
Nem nora, pois me ignora.

Vou-me embora pra Pasárgada.
Não sou de portar Bandeiras.
Mas lá vou amar mais que tantos.
Terei camas e seguro de concepção.
Posso ligar no automático
pra qualquer civilização.

E se a tristeza bater
cá me arrebento todo,
mas dou um nó no desatino
e bebo uma cachaça de Uberaba
que carrego no embornal.
Pois vou-me embora pra Pasárgada
mas levo um tanto de Brasil.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A Nega Maluca

Menção Honrosa no 14º Concurso Literário promovido pela CEPERJ - Fundação Centro Estadual de Estatísticas e Formação de Servidores Públicos do Rio de Janeiro


homenagem aos ceramistas brasileiros

A nega maluca
Pulou da caneca
Caiu no melado
Ficou doce à beça.

Com seu rebolado
Conquista quem é bamba
Menina sapeca
Levada da breca.

No berço da raça
Tem negra na graça
Tem ginga no samba
Faz luz da manhã.

Mocinha dengosa
Da praia das rosas
De todo cheirosa
Faz gosto te olhar.

Neguinha bem feita
Da bunda empinada
Balança em bordado
O teu caminhar.

A nega florida
De laços de fitas
Cabelo de chita
Tem made in Brazil.

Minha nega maluca,
qual deus te criou,
com a liga do barro
das Minas Gerais,
de Nosso Senhor?!

Te guardo com arte.
Te pinto.
Te quero.
Te fiz um bolero
pra te decorar.

Te amo cozida, assada, querida
Te faço só minha.
Te cubro de amor.

Cunhada obra-prima
no domo da arte.
Sacodes moringa
Me matas a sede.
Me secas de amor.

Neguinha da mata.
Das Dores, das Graças.
Mulata guerreira
nos rumos da fé.

Sincera!
Singela!
Tão meiga!
Tão bela!

Oh! Nega mais doida!
Que mora em Paris.
Visita Istambul.
Está em Moscou.
Conhece Lisboa.
É cabra da peste
lá em Budapest.

Às noites é gris.
Vermelho-estrada.
Tardes, furta-cor.
Nos sonhos azuis:
Enfeita o meu aparador...


                                                           Foto: Fátima Pimentel

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Melissa, o seu retrato

Melissa é estudante de Educação Física e minha sobrinha. Hoje é gente. Mas nasceu flor!


Melissa é flor, Melissa é gente.
Erva cidreira verdadeira.
Encantadora guerreira.
Melissa romana ou chá da França?
Garota carioca ou bálsamo da serra?
Melissa é doce!
Melissa é mel!
São poesias de simplicidade!
Extrai diamantes de sementes de romã.

Transforma as lutas mais difíceis,
nas vitórias mais fáceis.
Nunca chora.
Tem medo que pingue ouro
de seus olhos.
Prefere a zanga
ou um sorriso pela metade,
quando algo não lhe agrade.

Melissa é remédio que acalma.
São flores que surgem
brancas ou amareladas.
Com o passar do tempo,
podem ser rosadas.
Arbusto de verde intenso
nas extremidades
e verde claro na base.

Melissa é remédio que acalma.
São risos que surgem brancos
E sorrisos cheios de bondade.
Com o passar do tempo,
são ternos e esperançosos.
Menina de vigor intenso
nas extremas horas.
De derramar à base
por injustiças máximas.

Como todo brasileiro
não existe distância
que não vença
nem horizonte
que não ultrapasse.

Melissa é extrato da paz.
É chá de tranquilidade.
É pouco para a saciedade
e muito para a fome intensa.
Melissa é flor e é gente.
É doce de mel.
São versos mágicos
de Graça Carpes.
Tem poema que é o seu retrato.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Mulheres de magia


Que magia se desprende de teus pés
e faz do teu corpo, alado,
sem sair do chão?
Balanças ao ritmo
da melodia inaudível.
Copo de água no deserto.
Sede para cachoeira.
Cristalina e mineral certeza:
Sorrisos são sementes de mulher.

Onde namoras, moram os desejos.
Dormem em teus braços
os abraços inteiros.
Embalas os nascidos
e os que vão nascer.

Magas, bruxas, anjos...
De onde arrancas
a música que te sacode
na avenida sem desfile?
Em que céu serás estrela?
Em que jardim serás flor?
Em que mar serás navegação
de tantos sonhos de amor?

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Toda água é benta


Se as meninas dos meus olhos
não enxergam o céu da boca,
não diria ser a sina
do malfadado agouro.
Não desinventaram ainda
as engrenagens da bela vida.

Se as meninas dos meus olhos
perderam seu brilho cristalino,
vale lacrimal não transbordou seu jorro.
Lago de tantas imagens
não trouxe à tona as tinas
das lavadeiras antigas.
Dos louvamentos e dos louva-a-deus.
Das preces cantaroladas
nas águas bentas dos riachos,
escorrendo as rezas entre as pedras.
Rios dos lava-pés, de lavar roupas,
de lavar menina-dos-olhos.
Na palma da mão, um tanto de água,
pode ser um bocado de Deus.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Bob Cão


Amava o meu Bob Cão.
Era um pastor vira-lata.
Às vezes latia em alemão.
Mas falava melhor no gestual e no olhar.
Parava ao meu pé calado
e num repente
beijava-me a boca.
Subia num vôo acrobático.
Era um pássaro de pelos.
Quantas festas nos fazia.
Uma dita matou-nos de susto.
Grudou um osso na boca.
Desfaleceu sem adeus.
Arrancada a farpa,
a morte não retrocedeu.
No entanto, no espanto,
um jato d’água lhe tirou
da letargia.
Ah! Meu Bob Cão.
O mais valente dos amigos.
Fazia plantão à porta,
na minha chegada de todo dia.

Bob já nos chegou idoso.
Sofria do coração.
Mas ao menor risco,
já se mostrava arisco
e nos defendia de corpo inteiro.

Houve outros ataques de dormência.
E houve um definitivo.
Sem querer meu sofrimento
ele escondeu a morte
atrás do meu esquecimento.
Lá ele deitou profundo
na cova ao pé do coqueiro,
pra que eu não percebesse,
a ausência de seus beijos.

Aninhada a perda,
meus olhos não mais
se encontraram.
Quase sempre ainda derramam
pela ausência do velho guerreiro.
Meu amigo de pelo e do peito;
Onde vou amarrar a minha vida?

terça-feira, 24 de agosto de 2010

O amor está no ar

As redes sociais inauguraram
o amor eletrônico.
São informações impessoais
que convergem para uma
paixão cibernética.
A cara do teu corpo
não tem idade nem sexo.
Saudades de um tempo
em que se andava de mãos dadas.
Os beijos ficaram raros.
O frio dos encontros
esvaziou as barrigas.
Não se cora mais de vergonha.
Nem se decora poesia
para se ofertar à pessoa amada.
Os horários temperados
pelos atrasos
foram trocados
pelos orgasmos virtuais.
As flores são jardins prontos.
Muitas vezes congelados
pelos gigabytes pesados.
Gostava mais do amor
de antigamente.
Quando furtivamente havia
o enlace das mãos
no escuro do cinema.
Era bom tomar chope gelado
e beber beijo quente.
Ser lugar-tenente
no sonho do outro.
Guardar para sempre
os sonhos trocados.
Falar baixinho,
juras segredadas;
o alter ego sou eu.
Chorar a dor da separação.
Fazer da reconciliação
o troféu de não mais perder.

Quem sabe um anúncio
de jornal seja a janela
do antigamente.
Uma carta escrita ao acaso
para o endereço
de um coração nostálgico.
Uma muda de roseira.
Ninho de sabiá na goiabeira.
Um sorvete de queijo no final do Leblon.
Um violão num bar de Ipanema.
Uma esticada ao Joá.
Assistir ao amanhecer das águas.
Abrir um sorriso nas bocas fechadas.
Desejar bom dia, todos os dias.
Quem sabe, toda esta alquimia,
reabra a caixinha mágica do amor.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O dia da vida

Felizes dias tenham sido os teus.
Para que façam jus,
a este momento de luz:
a data do dia da vida.
Pelos cantos todos
que se dance tanto,
sem perder o encanto.
Se deguste a vida
doce, em pedacinhos:
brigadeiro, cajuzinho,
gamadinho e casadinho.
Os sorrisos todos,
sejam abertos aos cântaros.
Afagos e abraços,
modinhas e cânticos.
Que saúdem o hino
do teu próprio ninho;
Cantiga de amor,
cantiga de amigo.

O tempo ido e o pra se levar.
As sementes férteis.
Lavra do Jardim do Éden.
Derradeira estrela
desta vossa estrada.
Os vossos quereres
e os vossos poderes
são vossa bagagem
desta nave mãe, da vossa existência,
que ora, aporta, no porto da festa.
No entanto, já zarpa amanhã.
Vai de sonhos sobraçados pelas velas,
em busca da ilha da felicidade.

Douro-te ao dobrar
mais este marco da lida.
Dou-te de presente
toda a minha crença.
E leve a certeza
da minha amizade.
Se de nada valem.
Valem o bem querer.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Bolo de Barro

Te conto, mas não me pergunte,
como é que eu sei desta história.
A fome te engole por dentro
e tem um apetite voraz.
Te come as paredes do estômago
e toma o teu suco gástrico.
Queima as entranhas.
Apaga os sonhos.
Derruba o destino.
A fome te transforma
em homem de trapo.
Que come bolo de barro.
Engole sapo.
Toma água da chuva.
Sorri da mulher com chapéu.
Acha graça do sol e da lua.
O homem da rua não chora.
Não há desatino maior que aflore.
Não há tristeza que supere
a fome de todo dia.